Entrevista com J.K. Rowling sobre "O Chamado do Cuco"


Há algum tempo o site oficial do livro The Cuckoo's Calling, da escritora J.K. Rowling disponibilizou uma entrevista com a autora sobre o livro. Resolvi postar aqui pois se alguém não tinha visto ainda, seria bem legal verem a entrevista. Confiram ela abaixo:



1)Por que você escolheu um romance policial e por que sob pseudônimo? 

Sempre adorei ler ficção policial. No fundo, a maior parte das histórias de Harry Potter é de detetive (Harry Potter e a ordem da Fênix mais parece uma investigação dos porquês), mas há um bom tempo eu queria experimentar a coisa para valer. 

Quanto ao pseudônimo, eu estava ansiosa para voltar ao início da carreira de escritora neste novo gênero, trabalhar sem a euforia e as expectativas e receber um retorno sem verniz nenhum. Foi uma experiência incrível e eu só queria que tivesse uma vida mais longa. 

2) Por que você decidiu escrever como homem? Isso influenciou de alguma maneira sua 
escrita? 

Certamente eu queria colocar minha persona de escritora o mais distante possível de mim; assim, um pseudônimo de homem me pareceu uma boa ideia. Tenho orgulho de dizer, porém, que quando me “desmascarei” a meu editor David Shelley, que leu e gostou de O chamado do cuco sem perceber que foi 
escrito por mim, uma das primeiras coisas que ele disse foi “eu nunca teria pensado que uma mulher 
escreveria isto”. Ao que parece, consegui incorporar meu homem interior! 

3) Por que o nome de Robert Galbraith? Tem algo a dizer a todos os Robert Galbraiths do 
mundo?

Só espero que os verdadeiros Robert Galbraiths do mundo sejam tão clementes quanto os verdadeiros 
Harry Potters. Devo dizer que não creio que seus apuros sejam muito constrangedores. 

Escolhi Robert porque é um de meus nomes preferidos para homem, porque Robert F. Kennedy é 
meu herói e porque, felizmente, eu não tinha usado em nenhum dos personagens da série Harry Potter 
ou em Morte súbita. 

Galbraith me veio por uma razão um tanto estranha. Quando eu era criança, queria muito ser chamada 
de “Ella Galbraith”, não sabia por quê. Nem mesmo sei como tomei conhecimento do sobrenome, 
porque não me lembro de ter conhecido ninguém com ele. Seja como for, o nome me fascinava. Na 
realidade, considerei me chamar L. A. Galbraith pera a série Strike, mas por motivos óbvios decidi que 
as iniciais eram uma má ideia. 

Mais estranho ainda, havia um economista famoso de nome J. K. Galbraith, lembrança que só tive 
quando era tarde demais. Fiquei muito paranoica que as pessoas usassem isso como pista e 
descobrissem minha verdadeira identidade, mas felizmente ninguém investigou muito a fundo o nome 
do autor. 

4) Por que decidiu que o “autor” teria uma formação militar? 

Era o motivo mais fácil e mais plausível para que Robert soubesse como opera e investiga a sessão de 
Investigação Especial. Outro motivo para torná-lo militar, trabalhando com segurança civil, era dar-lhe 
uma boa desculpa para não aparecer em público, nem fornecer fotografias. 

5) Que pesquisa fez para escrever O chamado do cuco? 

Entrevistei militares na ativa e na reserva pelo máximo que me permitiram esse incômodo. Na 
realidade, todas as informações factuais vieram de fontes militares. Conheço vários soldados (da ativa e 
veteranos) e sou próxima de duas pessoas em particular, que foram incrivelmente generosas enquanto 
eu pesquisava a formação de meu herói (elas também me ajudaram a construir um currículo para 
Robert). Um desses amigos é do SIB (Special Investigation Branch). Assim, embora o próprio Strike 
seja inteiramente fictício, sua carreira e as experiências que ele teve baseiam-se em relatos verdadeiros 
de soldados reais. 

Na abertura do romance, Strike vive uma grave falta de sorte. Uma das críticas que mais apreciei (antes 
de Robert ser desmascarado) disse que meu herói enfrentava sua situação “com determinação, em vez 
dos clichês de autodestruição”. Dei a Strike muitas virtudes dos militares de quem sou próxima: força 
de caráter, humor negro, resistência e engenhosidade. 

Pesquisei sobre amputações abaixo do joelho e também visitei muitos pubs de Londres. A pesquisa 
envolvida na criação de um romance contemporâneo foi uma parte imensa do prazer. 

6) Por que ambientar o romance em Londres? Por que não Edimburgo? 

Amo Edimburgo e a cidade forma um pano de fundo impressionante e tentador para a ficção criminal, 
mas eu sentia que já havia muitos detetives literários atraentes andando por suas ruas. 

Meus pais eram londrinos e passei muito tempo ali em minha infância e na adolescência, visitando 
parentes. Morei lá em meus vinte anos e ainda adoro o lugar. É possível escrever sobre Londres a vida 
toda e não esgotar as tramas, as ambientações ou a história. 

7) Por que o título O chamado do cuco? 

O título é retirado de um poema melancólico de Christina Rossetti chamado, simplesmente, 
“Lamento”, das lamentações por alguém que morreu jovem demais. O título também contém uma 
alusão sutil a outro aspecto da trama, mas não posso explicar sem estragar a história, deixarei que os 
leitores descubram. 

8) Pode nos falar um pouco mais de Strike e por que decidiu fazer dele o personagem que é? E 
sua relação com Robin, que é intrigante? 

Além de ser ex-policial militar, meu herói é filho ilegítimo de um homem muito famoso que ele só 
encontrou duas vezes. Strike me proporciona um meio de falar de forma objetiva e desapaixonada das 
excentricidades que acompanham a fama. No exército, Strike teve o anonimato a que ansiava; agora que 
saiu, encontra quem faça muitos pressupostos sobre ele, com base unicamente em sua origem familiar. 
O sobrenome do personagem veio de um homem real (mas falecido) mencionado em um livrinho 
sobre a Cornualha. Seu nome de batismo, dado por sua mãe groupie e excêntrica, é incomum e uma 
irritação recorrente para ele quando as pessoas o entendem mal; sentimos que ele preferia se chamar 
Bob. Strike é um homem brilhante, mas ferido, que ainda se prende fortemente a alguns princípios para 
ele sagrados. Tenta ganhar a vida tolerando as dificuldades físicas que para muitos civis seriam 
insuportáveis e mantendo uma disciplina que muitos dispensariam em seu estado. 

A assistente de Strike neste caso, Robin, é uma secretária temporária que chega devido a um equívoco 
(ele tinha a impressão de haver cancelado seu contrato com a agência, sem ter fundos para pagar). 3 

Robin escondeu de todos, inclusive do noivo, a ambição de toda a vida de se envolver em trabalho de 
detetive. Fica emocionada quando se vê trabalhando para um detetive particular, mas sua relação no 
início não é promissora. 

Amo tanto Robin quanto Strike e isso significa alguma coisa. Ela evoluiu em grande parte de minha 
própria experiência como temporária, muito tempo atrás, em Londres, onde eu sempre conseguia 
alguma renda entre os empregos porque sabia datilografar 100 palavras por minuto porque escrevia 
ficção em meu tempo livre. 

No início Robin acha Strike muito pouco atraente e antipático, entre seu mau humor e seu cabelo “de 
pentelho”, mas logo começa a admirar o homem, sua ética de trabalho e sua inteligência. Enquanto 
isso, Strike, ciente de sua suscetibilidade como recém-separado e homem isolado, está decidido a não 
gostar demais desta garota prestativa e inegavelmente sexy e a não confiar demasiado nela. Foi muito 
divertido escrever a relação resultante, com muitas estranhezas e uma amizade que surge aos poucos. 

9) Por que decidiu doar seus royalties à ABF The Soldiers’s Chariry? 

Eu esperava poder guardar segredo da identidade de Robert por muito mais tempo, mas sempre soube que, se e quando eu fosse descoberta, pediria que meus royalties fossem pagos à ABF The Soldiers’s Charity. Em parte é por gratidão às pessoas que ajudaram na pesquisa, mas também porque a pesquisa e a redação do personagem de Strike me deram uma apreciação e uma compreensão maiores do quanto exatamente esta organização faz por soldados na ativa, reservistas e suas famílias, e o quanto o apoio é necessário. 

10) Autografou alguma vez exemplares como Robert Galbraith? Como podemos saber se são 
autênticos? 

Sim, fui solicitada por meu editor a autografar alguns exemplares de O chamado do cuco como Robert 
Galbraith, que ficaram disponíveis para venda na época no lançamento. Embora não possamos 
verificar se algum livro hoje no eBay é autêntico, quaisquer livros futuros que eu tenha autografado 
serão autenticados. A assinatura do Sr. Robert Galbraith é característica e consistente; passei um fim de 
semana inteiro praticando para ter certeza. 

11) Revelar a identidade verdadeira de Robert Galbraith não foi simplesmente uma campanha 
de marketing elaborada para impulsionar as vendas? 

Quando respondi a esta pergunta pela primeira vez, só pude dizer que não planejei nem desejava a 
revelação. Sem saber como aconteceu, fiquei mais decepcionada do que furiosa quando fui 
desmascarada. 

Embora tenha sido lançado há apenas três meses*, Robert vendeu 8.500 exemplares em todos os 
formatos (capa dura, ebook, para biblioteca e audiolivro), chegou a ser número um em vendas de 
audiolivros no Reino Unido e recebeu duas ofertas de produtoras de televisão. O sucesso de Robert 
neste período se compara favoravelmente com o sucesso de J.K. Rowling no período equivalente de 
sua carreira e tenho muito orgulho dele! 

Quando o jornalista do Sunday Times nos procurou, saltei à conclusão errônea de que alguém, de uma 
das produtoras de TV interessadas, teria desconfiado. Não só este autor inédito era avesso a aparecer 4 

em reuniões para uma adaptação para a telinha, como não havia fotos dele em lugar nenhum e ele por 
acaso tinha o mesmo agente e editor de J.K. Rowling! 

Porém, no final do dia em que o Sunday Times publicou a matéria, revelou-se que alguém de quem eu 
nunca ouvira falar contara meu segredo no Twitter. Seguiram-se então alguns dias muito desagradáveis 
em que fui obrigada a me perguntar quem do número mínimo de pessoas a quem eu me confidenciei 
poderia ter passado a informação a alguém que a twitaria ao mundo. Em momento algum pensei que a 
possível fonte fosse um advogado de uma firma de que eu evidentemente supus poder esperar inteira 
confidencialidade. A revelação foi um choque imenso e uma profunda decepção. 

Meu plano de escrever sob pseudônimo era antigo e embora eu não tenha tido o tempo que esperava, 
foi maravilhoso enquanto durou. Desfrutei de um período de escrita e pesquisa sem a pressão ou as 
expectativas e foi incrível receber feedback de editores, críticos e leitores sob um nome diferente. 

*Informação divulgada em julho de 2013, três meses após o lançamento do livro no Reino Unido. 

12) Vai continuar a escrever como Robert Galbraith? Haverá outros livros com Cormoran 
Strike? 

Sim, pretendo continuar escrevendo a série como Robert. Acabo de concluir a sequência e esperamos 
que seja lançada no ano que vem. 

2 comentários:

  1. Não tinha me interessado muito por este livro, mas agora fiquei com vontade de ler ^_^
    Quem sabe eu ganho de presente no natal :)

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  2. Atualmente estou a ler este livro, e cara, ele é muito bom! Independente da relevação de identidade da autora, se ele fosse lançado no Brasil, só pela história, seria um sucesso assim como em outros países! A escrita é sensacional, rica em detalhes e nada entediante em alguns momentos! Estou bem ansioso para ver a continuação dessa história... :D

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