Resenha: Caio Fernando Abreu - Inventário de um Escritor Irremediável - de Jeanne Callegari




Titulo: Caio Fernando Abreu- Inventário de um Escritor 
Autor: Jeanne Callegari
Editora: Seoman
ISBN: 9788598903101


Sinopse: O escritor Caio Fernando Abreu, fenômeno raro, é, ao mesmo tempo, cultuado pelos leitores e um dos autores mais estudados pela Academia Brasileira. Com uma bibliografia polêmica, ele acaba de ganhar o primeiro livro dedicado a investigar a sua vida ? que se revela tão intensa quanto obras emblemáticas como Morangos mofados e Onde andará Dulce Veiga.
Caio Fernando Abreu ? Inventário de um escritor irremediável, da jornalista Jeanne Callegari, é um perfil produzido em tom de reportagem, que reconstitui a vida do autor desde a infância, em Santiago do Boqueirão, até a morte por Aids, anunciada em crônica de jornal.

RESENHA


Por Bianca Manfrin


   E então vamos a pergunta que não quer calar: quem era realmente Caio Fernando Abreu? Pois bem, Caio Fernando Loureiro de Abreu, era um jovem tímido que nasceu na cidade de Santiago do Boqueirão, interior do Rio Grande do Sul, exatamente as oito e quinze da manhã do dia 12 de setembro de 1948. Era o primeiro filho de dona Nair e seu Záel (o nome do pai de Caio, era a junção do término do nome dos pais de Záel, avos de Caio, dona AdeliZA e seu ManuEL). A infância de Caio em Santiago foi calma e uma das melhores fases da vida dele, em que viveu com sua família e seus amigos, Beco e Gringo. Estes sempre trocavam livros com Caio e iam ao cinema com o mesmo.

   Desde pequeno Caio mostrou interesse pela escrita, lia muito. Caio era apaixonado por literatura, e compartilhava da sua paixão com alguns amigos, que quando não tinha dinheiro aproveitavam para furtá-los na Feira do Livro de Porto Alegre, anos mais tarde. Seu primeiro texto foi escrito quando tinha apenas treze anos e o conto se encontra na coletânea “Morangos Mofados”, um livro de sua autoria com muito requinte. Caio tinha potencial, seus pais sabiam disso e além do mais, ele queria conhecer coisas novas, novos lugares, novas pessoas e sabia que em Santiago não poderia satisfazer seus ensejos, então aos quinze anos Caio vai morar em Porto Alegre para estudar no Instituto de Porto Alegre, o IPA. O colégio era caro e bom, embora a mensalidade pesasse no bolso dos Abreu, D. Nair, mãe de Caio, concordava, ele precisava seguir em frente. Na escola Caio sofreu muito, não se adaptava, não arrumava amigos e assim foi tendo suas primeiras crises depressivas. As primeiras de muitas que estavam por vir.

   Com 18 anos Caio tem seu primeiro livro escrito, Limite Branco estava pronto, mas só foi publicado anos depois. Aos 19, Caio começa a cursar a faculdade de Letras em Porto Alegre, mas acaba por trancar a faculdade tempos depois e começa a frequentar o curso de Artes Dramáticas - Caio sempre teve um xodó por teatro - e assim como ele participava das peças, as escrevia também. Em 1968, Caio participa de um exaustivo processo de seleção para trabalhar na revista Veja, Caio entrou, claro. Mas acontece que São Paulo era grande demais. Era uma selva de pedra. E ele não parava, em São Paulo não se tinha descanso. Era trabalho de segunda a sexta, das oito da manhã às seis da tarde. Eram os parentes longes, os amigos longes. Ninguém conhecido. E o pior, o pior era aquela voz que ecoava sob os ouvidos dele, a voz do adolescente tímido com voz fina e desafinada, o adolescente esguio que Caio era. Era a voz do desemparo.

  Em Sampa era preciso trabalhar o dia todo. Batalhar de sol a sol. E ele, que sempre fora muito magro, perdera mais peso. Ficava nervoso, irritado; chegou a ficar doente, sem coragem de sair de casa. Era uma de suas fases depressivas. Caio sempre oscilava com seu humor quanto ao quesito mudanças. E demoraria muito para o jovem escritor entender a poesia das vielas e esquinas de São Paulo. E para piorar ainda mais a situação, tinha a voz. Esganiçada, odiosa, infantil. Com vinte anos de idade, a voz de Caio era um tormento para ele; não se desenvolvera; em consequência, ele tinha vergonha de falar com as pessoas. Chegou até a consultar um médico, que dissera que suas cordas vocais estavam viciadas no falar infantil. O tratamento era caríssimo e Caio não tinha condições de bancar, então ficava sob isolamento e aversão às sociabilidades.

  Novato em São Paulo Caio chegou a frequentar passeatas e reuniões de oposição à ditadura, mas sempre sem se comprometer. Caio nunca foi muito de assumir compromissos, de se engajar. Ele ia mais aos encontros contra a ditadura pelas festas que se fazia, pela celebração, pela oportunidade de ver pessoas. Contudo, mesmo com participações ocasionais e sem muito envolvimento, naquela época bastava para ser perseguido pelo regime e com Caio não foi diferente, então ele achou melhor sumir por uns tempos, e foi se hospedar no sítio da amiga Hilda Hilst, no interior de São Paulo.
Caio conhecera Hilda por intermédio de Ana Lúcia Vasconcelos, sua colega na primeira equipe da Veja. Ana nascerá na mesma cidade de Hilda e as duas tinham se tornado amigas, sabendo disso,

  Caio que gostava muito das obras literárias de Hilda, pediu a Ana que os apresentasse e ela acabou levando-o a Casa do Sol, e ele voltara muitas e muitas vezes depois disso. Durante a pequena temporada que passou na casa do Sol saiu seu primeiro livro - publicado - Inventário do Irremediável, irremediavelmente influenciado por Clarice Lispector, na época escritora preferida de Caio, era quase uma obsessão. A coisa chegou a um ponto, que Caio se proibiu de ler Clarice, pois, lendo-a, sentia a sensação de que tudo já tinha escrito(comigo isso também acontece frequentemente e eu me proíbo de ler Caio, pois é). E, como dizia só lia os livros dela escondido de si mesmo.

  Depois de passar um tempo no sítio para deixar a poeira baixar e trocar muitas ideias sobre literatura e astrologia com Hilda e organizar o material para seu livro de contos, Caio regride a Porto Alegre. Para ele, POA parece o paraíso: o céu azul, os morros, o verde das árvores… Ele amou Porto Alegre em tudo que ela era diferente de São Paulo: sem asfalto demais, sem confusões, sem loucuras e porralouquices. As pessoas hospitaleiras, calmas; o sotaque familiar: o “tu”. E o melhor, não precisar levantar cedo para ir trabalhar, nem sair de casa para comer. Ele manteve seu objetivo inicial: voltar para casa dos pais, que agora moravam na capital gaúcha e não mais em Santiago, a ideia de voltar para a faculdade, entretanto, o entusiasmo morre nas dificuldades burocráticas de reabrir a matricula e também havia aquela inabilidade dele de se prender em um lugar, ele não conseguia parar quieto nem se adaptar com horários. POA podia ser bonita o quanto quisesse, porém, não prendia o Caio. Ele queria estar dentro do furacão, queria estar onde as coisas aconteciam, onde havia confusão.

  E no Brasil, naquela época, era no Rio de Janeiro que havia confusões, era no Rio que as coisas aconteciam. E lá estavam alguns interesses de Caio: Clarice Lispector, Nélida Piñon, Maria Alice Barroso, Walmir Ayala, e assim por diante. E Caio, como só ele conheceu seus interesses, e os que não interessavam também. Cerca de um mês depois da sua chegada no Rio, Caio volta a Casa do Sol. E foi nessa sua estada lá que algo maravilhoso aconteceu. Caio tinha deixado de ser o rapaz tímido e retraído, que sentia vergonha de falar com os outros e passou definitivamente a ser um adulto, a sua voz, finalmente mudara. A nova voz de Caio agora era sedutora, bonita, charmosa, marcante e inexplicável. Ao longo do anos Caio e Hilda tem a mesma explicação para a mudança repentina da voz do Caio. Segunda Hilda na chácara havia uma figueira mágica, que quando alguém tivesse um problema era só contar a dita figueira e ela resolveria, e foi assim que o Cainho fez, contou a árvore sobre a voz e pediu para ajuda-lo, diz-se então que Caio voltou ao quarto apos ter desabafado com a árvore e enquanto lia um poema de Fernando Pessoa em voz alta, no terceiro verso a voz havia mudado. É claro que há outras versões, mas Caio, romântico, clichê e sonhador que só, prefere essa concordar com Hilda e manter essa história mágica.

  De voz mudada Caio volta ao Rio, decidido a se estabelecer por lá, mas seu plano não dá muito certo, logo está em Porto Alegre de novo. Se aquietou um ano na capital gaúcha. No tempo que ficou por lá, Caio participou de Oficinas de Teatro e começou a participar de festas malucas, orgásticas regadas a maconha e drogas mais pesadas, naquele frustrante objetivo de se sentir melhor, pois não, ele se sentia pior, ao fim das noites ele se sentia um lixo. E foram nessas e em muitas outras festas - não só no Sul - que Caio teve os filhos nunca realmente teve. Deixe-me explicar melhor, apesar da sua suposta homossexualidade, Caio havia namorado várias mulheres, umas sério e outras não, o que geralmente acontecia nas festas que frequentava. Algumas eram só uma noite, só uma transa e foram destes relacionamentos que Caio engravidou muitas mulheres e juntamente com elas optou pelo aborto. Não, não pense também que Caio era um monstro, ele sofreu muito com isso. Pela sua irresponsabilidade e suas consequências. Mas ele mal podia se sustentar, como sustentaria uma criança? E tinha medo também, medo que algo condenasse pra sempre o seu futuro rebento devido ao uso excessivo de drogas que usavam - ele e as namoradas -, era um quantia enorme, descontrolado e ele tinha medo. Se culparia para a vida inteira.

  Mas pelo menos sua vida profissional tinha dado uma guinada, a publicação do livro “Inventário do Irremediável” estava bombando e essa era a hora de se fixar e se dedicar pela sua paixão - e devo acrescentar, salvação e amiga -, a escrita. No ano seguinte está no Rio de novo, imerso no estilo hippie. Caio escreve então “O ovo apunhalado” sob o constante efeito de LSD, mescalina e chá de cogumelos - devo dizer que ele não dispensava um bom Jack Daniel’s também. Mas a estada no Rio é curta como todas as outras, Caio se desentende com os colegas de quarto e para piorar a situação, é preso; por falso flagrante de porte de drogas. Com esse escândalo, Caio é demitido, para não “sujar” o nome da revista para a qual trabalhava, mas o ex-chefe muito generoso paga a fiança, porém, pede para Caio dar um chá de sumiço e é isso que ele faz.

  Volta a Porto Alegre, trabalha no Zero Hora, mas claro, não se aquieta por lá. Fica vários anos assim sem se aquietar. Vai para Europa com uns amigos e tem de lavar pratos para se sustentar e seu inglês era muito chulo. Apos a publicação do livro “Morangos Mofados”, volta a Europa, agora tudo pago pela empresa, mas quando volta ao Brasil, tem que ralar. Tem casos homossexuais, que não duravam muito e Caio sofria, se apegava demais. E então escrevia para descarregar. Era difícil ter um relacionamento com Caio, às vezes ele se trancava no quarto e não saia de lá. Por oras, era arrogante, tinha temperamento difícil, e crises depressivas exaustivas, denotativas. Ninguém suportava. E Caio sofria também, porque frequentemente se apaixonava por heteros, era tão difícil para ele. E ele escrevia. Escrevia para se salvar. Pensou em se suicidar algumas vezes, mas a vida era bela demais para ser deixada para trás, para ser desperdiçada.

  Caio teve um caso com nosso querido e aclamado Cazuza, vocês sabiam disso? Pois é, em um show do Cazuza, Caio o esperava no camarim para depois irem para as festas malucas e Cazuza dedica a música “Só as mães são felizes” para Caio. E este fica extasiado de empolgação, de emoção. Quando o show acaba, rola uns amasso no camarim, e não só nos camarins. Caio sofreu muito quando Cazuza morreu, ele que não era de chorar, chorava descontroladamente. E Caio tinha medo, medo da doença, que era praga na época. Diziam que a doença era castigo divino para aqueles que infringiam as leis sagradas. Homossexualismo era pecado e a Aids era o preço que se pagava pela escolha.
Caio participa de programas de TV, como o programa do Jô. Dá palestras, trabalha como tradutor de livros, trabalha como cronista em vários jornais. Participa de debates, peças de teatro, projetos, festas e viagens. E só então Caio para. Estava doente, temia que tivesse com A doença. Graça Medeiros amiga de Caio desde infância, disse então que estava na hora de fazer O Teste. E que ele tivesse fé. Daria negativo ( tinha que dar!) e então todos poderiam fazer camisetas com a frase “Eu sou negativo” e fazer uma festa para comemorar. Caio faz O Teste mas não tem coragem de abrir o resultado. Pede para Graça faze-lo. Ela o faz. Caio pergunta:

― E aí? ­

― Não vai dar pra fazer a camiseta ― respondeu ela.

Passa então seus últimos anos em Porto Alegre, com os pais, escrevendo crônicas para Zero Hora, revirando textos, brincando com os sobrinhos e cuidando de suas roseiras. E só então Caio se aquieta. Dessa vez, para sempre.






Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado por descer aqui em baixo para comentar, agradeço sua opinião.